O barril de petróleo de referência internacional chegou ontem perto de 110 dólares e passou o pregão inteiro acima de 100, com alta de mais de 6% no dia, em mais um capítulo de uma escalada que já dura meses. O número importa porque não é produto de decisão de nenhum banco central nem de nenhuma reunião de ministros: ele sai diretamente da geografia. Dois estreitos, o de Ormuz e o de Bab el-Mandeb, controlam o fluxo de cerca de um quarto do suprimento global de energia.
Quando a tensão pressiona qualquer um dos dois, o mundo paga mais caro para se mover. O estreito do sul do Mar Vermelho, é a porta de entrada do Canal de Suez, por onde costumava passar cerca de 30% do tráfego mundial de contêineres. Desde que os ataques voltaram a se concentrar na região, em julho, a passagem de petroleiros fora das frotas paralelas caiu cerca de 40%. Os navios que desistem do atalho por Suez precisam contornar o continente africano, o que acrescenta entre 10 e 14 dias de viagem, eleva o consumo de combustível e pressiona fretes e seguros.
O frete entre a Ásia e a Europa está hoje entre 25% e 40% acima do que era antes da crise. O Brasil assiste a esse cenário de longe, mas não está imune. Com os juros básicos em 14% ao ano e o real sensível a choques externos, qualquer movimento brusco no preço do petróleo chega à economia doméstica pelos custos de energia e combustível embutidos em toda a cadeia produtiva. Um barril persistentemente acima de 100 dólares torna bem mais difícil a tarefa de ancorar as expectativas de inflação e isso torna ainda mais necessária uma política fiscal séria.
O ponto que merece atenção não é o preço de hoje, mas a natureza da incerteza. Crises de oferta com raiz geopolítica são diferentes de desequilíbrios cíclicos: não respondem a corte de juros nem a estímulo fiscal. O produtor de petróleo pode aumentar a extração, mas não consegue mudar a localização dos estreitos. É essa rigidez geográfica que transforma um conflito regional em variável da economia global, presente em decisões de investimento, nos resultados das empresas e no bolso do consumidor, em qualquer parte do mundo.
Com a política fiscal frouxa atual, o país tem menos margem para absorver choques internacionais. Por isso é preciso fazer o dever de casa enquanto há tempo, porque uma coisa é certa: esta crise não será a última.