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Marcel Lima

Quando o judiciário vira ativo de risco

09/09/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

Há um momento em que a crise institucional deixa de ser assunto de juristas e passa a ser variável de precificação. O Brasil chegou a esse ponto. Ontem o dólar caiu 0,86% e fechou a R$ 5, menor valor em um mês, enquanto a bolsa brasileira subiu 1,25% e terminou acima dos 187 mil pontos, depois de bater mais de 189 mil pontos no melhor momento do pregão. Havia motivos técnicos na mesa. O boletim semanal de projeções do banco central baixou a inflação esperada para este ano de 5,01% para 5%, e o petróleo se aproximou de cem dólares o barril depois de ataques a instalações de energia na Arábia Saudita, o que sustenta o setor de energia daqui.

Mas nenhum dos dois explica a intensidade do movimento. O que estava sendo lido, de fato, era pesquisa eleitoral. Uma sondagem encomendada por um banco de investimento, com duas mil entrevistas feitas entre 4 e 7 de setembro e margem de erro de 2 pontos, mostrou pela primeira vez nessa série o candidato da oposição numericamente à frente na simulação de segundo turno: 46% contra 45% do governo atual. Empate técnico, mas inversão de sinal.

O mercado financeiro, com todo o seu pragmatismo, tende a descontar antecipadamente qualquer movimento que sinalize mudança de política fiscal. Quando uma eleição que parecia resolvida passa a parecer aberta, o real se valoriza e a bolsa sobe porque o investidor começa a precificar a possibilidade de uma agenda econômica mais austera. Não é julgamento moral sobre candidatos. É aritmética de risco. O que torna a situação incomum é que a variável que embaralhou o jogo não foi o desempenho da economia.

A taxa básica de juros está em 14% ao ano, com o mercado projetando 13,75% para o fim do ano. A inflação esperada mal se moveu. A economia segue crescendo pouco, com projeção de 1,93% para o PIB em 2026. O cenário econômico não mudou de forma súbita. O que mudou foi a temperatura do conflito dentro do próprio judiciário, com um ministro da corte suprema determinando o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal e do diretor de inteligência do órgão, e a Advocacia-Geral da União pedindo à presidência do tribunal a suspensão da decisão.

E aqui está o ponto que merece atenção dos investidores: até agora os ativos não embutiram prêmio de risco por causa dessa crise. O argumento é que ainda não há elemento concreto de ruptura institucional. Ou seja, o preço de hoje pressupõe que o conflito se resolve dentro das regras. Essa premissa é uma aposta, não um dado. Quando a credibilidade da instituição que arbitra os conflitos passa a ser questionada, os outros atores do sistema começam a operar sem balizas claras.

Empresas, investidores e até partidos precisam recalcular posições com base num referencial que deixou de ser previsível. O custo disso não aparece como linha no balanço. Aparece no prêmio de risco embutido nos ativos, na hesitação de quem decide investir e na imprevisibilidade que corrói qualquer planejamento de médio prazo. A leitura do mercado pode estar equivocada, como frequentemente acontece em períodos eleitorais.

Mas o sinal em si é relevante: quando câmbio e bolsa passam a se mover menos por dados econômicos e mais pelo andamento de disputas internas no judiciário, o país entrou num regime diferente de incerteza. Um regime em que a confiança na estrutura que deveria resolver conflitos vira, ela mesma, o principal fator a ser monitorado.

E você?

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