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Marcel Lima

Quando a economia sangra, o voto vai para as bordas

08/09/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 4 min

O resultado eleitoral de domingo em um estado no leste alemão com pouco mais de 2,1 milhões de habitantes, não é apenas uma curiosidade regional. O partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha, obteve 43,8% dos votos, mais que o dobro dos 20,8% que havia conquistado na eleição anterior, em 2021, no mesmo estado. O partido que governava a região, de centro-direita, despencou de 37,1% para 17,2%. Essa não é uma oscilação normal de ciclo eleitoral.

É uma ruptura. O pano de fundo econômico explica muito. A Alemanha acumulou dois anos consecutivos de recessão em 2023 e 2024, e o crescimento de 2025 foi de apenas 0,2%, segundo o escritório federal de estatísticas do país. A maior economia da Europa patina enquanto a Espanha cresce 2,8% e a França avança 0,7%. Quando o motor para, a frustração procura endereço e, historicamente, o endereço favorito é o extremismo. O referido estado alemão carrega ainda um peso demográfico singular.

Segundo as estatísticas oficiais, sua população caiu 26% entre 1990 e 2024, a maior retração entre todos os estados alemães no período. Os que saíram foram, em geral, os mais jovens e mais escolarizados. Quem ficou, herdou números sensíveis: 28% dos moradores já passaram dos 65 anos; a parcela em idade de trabalhar encolheu de 63% para 55% da população desde 2000; e a média de idade, de 48,3 anos, é a mais alta do país.

Isso sobrecarrega serviços públicos e cria uma sensação permanente de abandono. Esse caldo é fértil para discursos que prometem fronteiras, identidade e ordem. O que torna o resultado mais revelador, porém, é o que ele diz sobre os partidos tradicionais. A centro-direita perdeu para um movimento que cresce há mais de uma década com uma narrativa simples: as elites falharam, a imigração destruiu a coesão, a Rússia não é inimiga.

Essa narrativa tende a avançar exatamente onde o Estado entregou menos. A extrema direita ainda não conseguiu maioria absoluta, ficou três cadeiras abaixo dos 42 assentos necessários para governar sozinha. Mas a aritmética da coalizão está se tornando cada vez mais favorável ao partido, e as pesquisas nacionais já o colocam em torno de 27% de intenção de voto, à frente de todos os outros. A eleição de 20 de setembro em outro estado alemão pode confirmar ou não se esse avanço é geograficamente restrito.

O risco real não é um resultado isolado. É a repetição do padrão que transformou movimentos marginais em força de governo em outros países europeus e na própria Alemanha do passado. Economia fraca, instituições desgastadas e narrativa simples formam uma combinação que os partidos do centro ainda não aprenderam a desfazer.

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