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Marcel Lima

O Fed sobe juros e o custo da política americano começa a aparecer

17/09/2026 · 3 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
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Artigo em áudio · 3 min

O banco central americano elevou ontem sua taxa de referência em 0,25 ponto percentual, levando-a para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. Foi a primeira alta desde 2023, e a decisão foi unânime entre os doze votantes. O movimento não surpreendeu o mercado, mas consolidou algo mais importante do que o ajuste em si: a sinalização de que o ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos pode não ter terminado. Dezesseis dos dezoito dirigentes do Fed projetam pelo menos mais uma elevação até o fim do ano.

O pano de fundo que forçou essa virada é conhecido, mas seus efeitos concretos merecem atenção. A inflação ao consumidor nos Estados Unidos marcou 3,4% nos doze meses até agosto, com o núcleo, que exclui alimentos e energia, em 2,4%. Ainda assim, o banco central americano está há mais de cinco anos com a inflação acima da meta de 2%. O petróleo tipo Brent voltou a superar os US$ 100 o barril em 9 de setembro, pela primeira vez desde julho, pressionado pelo conflito no Oriente Médio.

A gasolina subiu 3,9% apenas em agosto e respondeu por mais de um terço da alta mensal do índice cheio. Não é um problema que a política monetária resolve sozinha. Fato é que o banco central americano opera com uma ferramenta relativamente bruta diante de uma inflação que tem mais de uma origem ao mesmo tempo: o choque de energia causado pela geopolítica e uma economia aquecida, com investimento forte das empresas e crédito farto.

Subir juros esfria crédito e consumo, mas não traz o petróleo de volta nem reabre rotas de navegação. O presidente do Fed, reconheceu isso ao dizer que a instituição não consegue mexer em preços específicos, como petróleo e alimentos. O que ela pode fazer, segundo ele, é impedir que essas altas se espalhem pelo resto da economia. Para o americano comum, o efeito é direto: crédito mais caro no cartão, no financiamento de automóveis e nas hipotecas, que acompanham os títulos do Tesouro americano de dez anos.

Esses títulos chegaram a 5% na véspera da decisão, o maior nível desde 2007. Isso aperta as condições financeiras, encarece a dívida pública e, com ela, reacende toda a discussão sobre a sustentabilidade fiscal do país. Para o Brasil, o impacto é indireto, mas real. Juros mais altos nos Estados Unidos reduzem a diferença em relação à Selic, encarecem o financiamento externo e tendem a fortalecer o dólar no mundo todo, o que dificulta a vida do Banco Central, que acaba de fazer o quinto corte seguido e precisa de espaço para continuar.

O ambiente externo que se forma agora é menos confortável do que parecia há seis meses. E isso exige que a política econômica doméstica não dê margem a novos deslizes.

E você?

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