O mercado financeiro tem uma habilidade peculiar: processa em horas o que a política leva semanas para digerir. Ontem foi um exemplo disso. Enquanto Brasília era sacudida pela divulgação de um relatório com mais de 200 páginas da Polícia Federal, descrevendo mensagens enviadas por um banqueiro preso a um ministro do Supremo Tribunal Federal, a bolsa encerrou o pregão em alta de 1,30%, aos 179.722 pontos, e o dólar recuou 0,47%, fechando a R$ 5,1557.
A crise institucional e a precificação eleitoral correram em paralelo, e por ora prevaleceu a segunda. O paradoxo tem uma explicação. Os investidores acompanham a possibilidade de a crise desgastar a gestão atual e reforçar as chances de uma candidatura vista pela ala majoritária do mercado como capaz de assegurar a transição para um programa de ajuste fiscal. Ou seja, parte do movimento comprador de ontem não foi cegueira diante do escândalo, foi cálculo político embutido em ordem de compra.
O conteúdo em si é pesado. O relatório reúne indícios de ao menos seis encontros entre o ex-banqueiro e Alexandre de Moraes entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Há ainda registros que sugerem envolvimento do ministro com o contrato firmado pelo banco com o escritório de advocacia de sua esposa. O relatório da Polícia Federal também revela que o banqueiro perguntou ao ministro se precisaria sair do país dois dias antes da prisão, em 15 de novembro de 2025.
A consequência imediata é uma encruzilhada institucional sem precedente claro. O ministro relator do caso sinalizou que levará o relatório ao plenário do tribunal na semana que vem. Do outro lado, a Procuradoria Geral da República já se posicionou pedindo a nulidade do processo, posição que o relator tende a ignorar. O placar interno ainda está indefinido, com votos suficientes para resultados opostos dependendo de como alguns ministros se posicionarem em sessão aberta e televisionada.
O que o mercado ainda não precificou por completo é o risco de duração. O otimismo com a atividade econômica e a valorização das matérias-primas globais prevaleceram nas telas da bolsa, sobrepondo-se à nova onda de instabilidade jurídica e política que sacudiu Brasília ao longo do dia. Mas essa sobreposição tende a ser temporária. Crises institucionais que se arrastam aumentam o chamado prêmio de risco nos juros longos, encarecem o crédito e pressionam o câmbio, independentemente do resultado eleitoral que gerem.
Seguimos acompanhando os próximos capítulos dessa série envolvente padrão Netflix, cujo roteiro cada vez mais se assemelha ao de um filme de terror.