Newsletter diária
Marcel Lima

O Brasil que a China não quer perder, mas do qual também não quer depender

22/09/2026 · 4 min de leitura
Escrito por Marcel Lima
Sócio e Assessor de investimentos da VALOR | XP. Atua com planejamento financeiro aliando a técnica aos objetivos individuais.
Falar com Marcel
Artigo em áudio · 4 min

A relação comercial entre Brasil e China vive um paradoxo crescente: quanto mais o Brasil se torna indispensável para a segurança alimentar chinesa, mais Pequim trabalha para reduzir essa dependência. Entender essa tensão é entender uma das variáveis mais decisivas para a economia brasileira nos próximos anos, independentemente de quem governe o país. Os números falam por si. A China comprou 87,1 milhões de toneladas de soja brasileira em 2025, cerca de 80% de tudo o que o Brasil exportou do grão no ano.

Ao mesmo tempo, a guerra comercial com os Estados Unidos derrubou as compras de soja americana: entre janeiro e agosto de 2025, a China importou apenas 5,8 milhões de toneladas dos EUA, contra 26,5 milhões no mesmo período de 2024, queda de quase 80%, segundo a alfândega chinesa. O Brasil ocupou boa parte desse espaço, e o agronegócio brasileiro saiu ganhando no curto prazo. Mas Pequim já deixou claro que não pretende ficar nessa posição.

A autossuficiência alimentar é prioridade declarada do governo chinês: está no Documento Central nº 1, que abre a agenda agrícola todo ano, e na Lei de Segurança Alimentar, em vigor desde junho de 2024. Depender de um único fornecedor de grãos é tratado lá como questão de segurança nacional. O acordo fechado com Washington em outubro de 2025, que prevê compras de 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028, vai na mesma direção: diversificar.

Essa lógica tende a pressionar as exportações brasileiras no médio prazo, mesmo que hoje o fluxo siga robusto. Do outro lado da equação, a dependência do Brasil em relação à China cresce em outra frente. Em 2025, o Brasil foi o principal destino mundial dos investimentos chineses, com US$ 6,1 bilhões, alta de 45% sobre 2024, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Energia elétrica e mineração lideraram os aportes, seguidas pelo setor automotivo.

São investimentos em infraestrutura crítica: geração solar e eólica, transmissão, minerais estratégicos. Quanto mais esse capital se instala, mais difícil fica desfazer os laços sem custo econômico real. O ponto cego desse arranjo é que o Brasil vende commodity e compra infraestrutura. Da China vêm carros elétricos, equipamentos e tecnologia embarcada em câmeras e redes de telecomunicações. Na Europa, quem tem margem para escolher já está trocando parte dessa infraestrutura por alternativas mais caras: a Alemanha decidiu retirar componentes da Huawei e da ZTE do núcleo da sua rede 5G.

O Brasil, por razões fiscais e de capacidade industrial, ainda não tem essa margem de manobra. Qualquer governo que assuma em 2027 vai herdar essa geometria. A retórica importa menos do que parece: romper com a China no plano comercial significaria pressionar o agronegócio, setor que responde por uma fatia relevante das exportações do país. Aproximar-se demais, sem contrapartidas em tecnologia e acesso a mercados, significa aprofundar uma assimetria que já é estrutural.

O desafio real é negociar com quem precisa de você hoje, mas trabalha ativamente para não precisar amanhã.

E você?

Acompanhar o mercado é necessário, mas só vira resultado quando aplicado ao seu caso. A primeira conversa não tem custo e trata só dos seus objetivos.

Na comunidade a newsletter chega todo dia, com o áudio e o resumo do mercado. Se preferir começar sozinho, faça seu diagnóstico em menos de 5 minutos.
Este conteúdo não é uma recomendação de investimento. O que faz sentido para o seu patrimônio depende do seu perfil, dos seus objetivos e do prazo em que você vai precisar do dinheiro. Clique abaixo para conversarmos sobre seus investimentos.
Continue lendo
Ver todas →
21/09/2026
O Brasil que não se enxerga no espelho
18/09/2026
O reajuste de véspera
17/09/2026
O Fed sobe juros e o custo da política americano começa a aparecer
Ver todas as edições