A relação comercial entre Brasil e China vive um paradoxo crescente: quanto mais o Brasil se torna indispensável para a segurança alimentar chinesa, mais Pequim trabalha para reduzir essa dependência. Entender essa tensão é entender uma das variáveis mais decisivas para a economia brasileira nos próximos anos, independentemente de quem governe o país. Os números falam por si. A China comprou 87,1 milhões de toneladas de soja brasileira em 2025, cerca de 80% de tudo o que o Brasil exportou do grão no ano.
Ao mesmo tempo, a guerra comercial com os Estados Unidos derrubou as compras de soja americana: entre janeiro e agosto de 2025, a China importou apenas 5,8 milhões de toneladas dos EUA, contra 26,5 milhões no mesmo período de 2024, queda de quase 80%, segundo a alfândega chinesa. O Brasil ocupou boa parte desse espaço, e o agronegócio brasileiro saiu ganhando no curto prazo. Mas Pequim já deixou claro que não pretende ficar nessa posição.
A autossuficiência alimentar é prioridade declarada do governo chinês: está no Documento Central nº 1, que abre a agenda agrícola todo ano, e na Lei de Segurança Alimentar, em vigor desde junho de 2024. Depender de um único fornecedor de grãos é tratado lá como questão de segurança nacional. O acordo fechado com Washington em outubro de 2025, que prevê compras de 25 milhões de toneladas de soja americana por ano até 2028, vai na mesma direção: diversificar.
Essa lógica tende a pressionar as exportações brasileiras no médio prazo, mesmo que hoje o fluxo siga robusto. Do outro lado da equação, a dependência do Brasil em relação à China cresce em outra frente. Em 2025, o Brasil foi o principal destino mundial dos investimentos chineses, com US$ 6,1 bilhões, alta de 45% sobre 2024, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Energia elétrica e mineração lideraram os aportes, seguidas pelo setor automotivo.
São investimentos em infraestrutura crítica: geração solar e eólica, transmissão, minerais estratégicos. Quanto mais esse capital se instala, mais difícil fica desfazer os laços sem custo econômico real. O ponto cego desse arranjo é que o Brasil vende commodity e compra infraestrutura. Da China vêm carros elétricos, equipamentos e tecnologia embarcada em câmeras e redes de telecomunicações. Na Europa, quem tem margem para escolher já está trocando parte dessa infraestrutura por alternativas mais caras: a Alemanha decidiu retirar componentes da Huawei e da ZTE do núcleo da sua rede 5G.
O Brasil, por razões fiscais e de capacidade industrial, ainda não tem essa margem de manobra. Qualquer governo que assuma em 2027 vai herdar essa geometria. A retórica importa menos do que parece: romper com a China no plano comercial significaria pressionar o agronegócio, setor que responde por uma fatia relevante das exportações do país. Aproximar-se demais, sem contrapartidas em tecnologia e acesso a mercados, significa aprofundar uma assimetria que já é estrutural.
O desafio real é negociar com quem precisa de você hoje, mas trabalha ativamente para não precisar amanhã.